O renascimento de Maria (EDS)



Depois de mais de dois anos sem levar o Centro Cirúrgico Móvel para dentro da floresta, mais de 90 voluntários partiram de Campinas (SP) com destino à pequena cidade Normandia, ao norte de Roraima, próximo à fronteira com a Guiana. Não era uma expedição qualquer: estamos aqui falando de uma ação que entregaria, mais tarde, quase 500 cirurgias em um território isolado na Amazônia - um recorde da EDS que escancara a demanda reprimida pelos efeitos da pandemia entre populações indígenas.


Não é de hoje que a ONG Expedicionários da Saúde cuida de quem cuida da floresta. Foi em 2003, quando um grupo de amigos médicos, em uma de suas viagens aventureiras, decidiu explorar o Pico da Neblina. Na descida conheceram uma comunidade indígena muito isolada em que viviam bem, exceto pela ausência de saúde especializada - quase que inexistente na região. A partir daí, os amigos decidiram retornar periodicamente para diferentes comunidades da região do Alto Rio Negro (AM) para oferecer atendimento, e logo viram a necessidade urgente de criar um modelo de hospital que pudesse atender a determinadas demandas cirúrgicas, mas adaptado às condições amazônicas, evitando assim que os indígenas precisassem deixar suas comunidades para ir a grandes centros e entrarem em filas de espera que poderiam demorar anos. Assim nasceu, pelas mãos do atual presidente, Dr. Ricardo Affonso Ferreira a EDS.


2022 foi um recomeço para a Organização, já que marcou a retomada das tradicionais expedições, agora com um novo Centro Cirúrgico Móvel, mais moderno e eficiente. A ONG atuou de forma intensa no combate à pandemia nos dois anos anteriores, e todos os esforços estavam voltados para o tratamento de pacientes acometidos pela Covid-19, tanto na Amazônia, quanto em Campinas (SP). Portanto, a Expedição 47, que aconteceu na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, mais precisamente no Lago do Caracaranã, teve um gosto ainda mais especial.


Nesta missão em particular a EDS colecionou dezenas de histórias emocionantes. Crianças, jovens e idosos indígenas tiveram suas vidas transformadas radicalmente após serem submetidas a cirurgias que, para nós, que vivemos nos grandes centros urbanos, são relativamente simples.


Uma das histórias mais marcantes da expedição na Raposa Serra do Sol é da indígena Maria Macuxi, mãe de dois filhos pequenos e totalmente cega, até então. A catarata, doença que acometeu Maria de forma precoce, não é rara em regiões equatoriais como a que vive, devido à alta incidência dos raios solares. Trata-se da principal causa de cegueira reversível no mundo e pode ser altamente incapacitante já que tira o paciente de sua vida normal e produtiva.


Maria chegou à Expedição com medo, mas ao mesmo tempo com esperança, pois aquela seria, talvez, a única oportunidade de voltar a enxergar. Já no Complexo Hospitalar EDS, fez exames e consultas com os médicos voluntários e foi internada para ser operada no dia seguinte. Ansiosa, ao entrar em cirurgia, pediu para que seu marido cuidasse de seus filhos, um de 4 e outro de 1 ano de vida - que agora aguardavam do lado de fora, também apreensivos. O procedimento foi um sucesso e em meia hora Maria já estava liberada para o pós-operatório para, no dia seguinte, receber alta médica.


Todos os dias de expedição, bem cedo, os voluntários acompanham um ritual que é de emocionar qualquer um: os pacientes operados no centro de Oftalmologia, muitos parcialmente ou totalmente cegos, têm seus tampões removidos dos olhos e voltam a enxergar pela primeira vez em anos. Lá estava Maria, sentada, aguardando pacientemente sua vez, sem saber exatamente o que esperar. Ela ouviu uma voz desconhecida: "Bom dia Dona Maria, vamos tirar seu tampão e pingar um colírio?" - dizia a enfermeira Ana Paula que cuidadosamente tirou o curativo. Tímida, a paciente viu aos poucos a luz entrar em seus olhos e, a cada segundo que passava, reconhecia ao seu redor cores e formas que há muito tempo já não enxergava. Maria se emocionou muito, mas não esperava pelo que aconteceria em seguida: ainda se habituando com a claridade e com tudo que via, ouviu a voz já conhecida de seu marido, que delicadamente colocou seu filho mais novo em seu colo.


Maria enxergou seu filho pela primeira vez.

Num choro compulsivo misturando alegria e alívio, abraçou a criança agradecendo repetidamente por aquele momento. Olhava atentamente para cada parte do rosto e do corpo do filho, e as equipes de saúde que assistiam à cena se emocionaram como se estivessem assistindo a um nascimento. Foi Maria quem renasceu naquele dia.


A paciente Maria Macuxi é um de muitos exemplos de transformações de vida que passam pela EDS, e são, sem a menor dúvida, a confirmação de que os Expedicionários da saúde estão no caminho certo em direção ao cuidado dos verdadeiros guardiões da Amazônia, da preservação da floresta e da cultura indígena.


*a fim de preservar a identidade da paciente, a AbmthS utilizou o nome fictício de Maria.

 

Rebirth of Maria


After more than two years without taking the Mobile Surgical Center into the forest, more than 90 volunteers left Campinas (SP) for the small-town Normandia, north of Roraima, close to the border with Guyana. It was not just any expedition: we are here talking about an action that would later deliver almost 500 surgeries in an isolated territory in the Amazon - an EDS record that opens wide the repressed demand by the effects of the pandemic among indigenous populations.


It is not new that the NGO Expedicionários da Saúde takes care of those who take care of the forest. It was in 2003, when a group of medical friends, on one of their adventurous trips, decided to explore Pico da Neblina. On the way down they met a very isolated indigenous community in which they lived well, except for the lack of specialized health - almost non-existent in the region. From there, the friends decided to periodically return to different communities in the Alto Rio Negro (AM) region to offer care, and soon saw the urgent need to create a hospital model that could meet certain surgical demands, but adapted to Amazonian conditions., thus avoiding the need for indigenous people to leave their communities to go to large centers and to enter queues that could take years. Thus was born, at the hands of the current president, Dr. Ricardo Affonso Ferreira to EDS.


2022 was a fresh start for the Organization, as it marked the resumption of traditional expeditions, now with a new, more modern, and efficient Mobile Surgical Center. The NGO worked intensively in the fight against the pandemic in the previous two years, and all efforts were focused on the treatment of patients affected by Covid-19, both in the Amazon and in Campinas (SP). Therefore, Expedition 47, which took place in the Raposa Serra do Sol Indigenous Land, more precisely in Lake Caracaranã, had an even more special taste.


On this particular mission EDS collected dozens of exciting stories. Indigenous children, young people and elderly people had their lives radically transformed after undergoing surgeries that, for us, who live in large urban centers, are relatively simple.


One of the most remarkable stories of the expedition in Raposa Serra do Sol is the indigenous Maria Macuxi, mother of two small children and totally blind, until then. Cataract, a disease that affected Maria early, is not rare in equatorial regions like the one she lives in, due to the high incidence of sunlight. It is the leading cause of reversible blindness in the world and can be highly disabling as it takes the patient out of his normal and productive life.


Maria arrived at the Expedition with fear, but at the same time with hope, because that would be, perhaps, the only opportunity to see again. At the EDS Hospital Complex, she underwent exams and consultations with volunteer doctors and was hospitalized for surgery the next day. Anxious, when going into surgery, she asked her husband to take care of their children, a 4-year-old and a 1-year-old-who were now waiting outside, also apprehensive. The procedure was a success and within half an hour Maria was already released for the postoperative period to be discharged the next day.


Early every morning in the morning, the volunteers followed a ritual that is thrilling for anyone: patients operated on at the Ophthalmology center, many partially or totally blind, had their plugs removed from their eyes and could see again for the first time in years. There was Maria, sitting patiently waiting her turn, not knowing exactly what to expect. She heard an unfamiliar voice: "Good morning, Dona Maria, shall we remove your tampon and drop some eye drops?" - said the nurse Ana Paula who carefully removed the bandage. Shy, the patient gradually saw the light enter her eyes and, with each passing second, she recognized colors and shapes around her that she had not seen for a long time. Maria became very emotional but did not expect what would happen next: still getting used to the light and everything she saw, she heard the already familiar voice of her husband, who gently placed her youngest son on her lap.


Mary saw her son for the first time.


In a compulsive cry mixing joy and relief, she hugged the child repeatedly giving thanks him for that moment! She looked carefully at every part of her son's face and body, and the health teams watching the scene were moved as if they were watching a birth. It was Mary who was reborn that day.


Patient Maria Macuxi is one of many examples of life transformations that go through the EDS, and they are, without the slightest doubt, confirmation that the Health Expeditionaries are on the right path towards caring for the true guardians of the Amazon, forest and indigenous culture.


*In order to preserve the patient's identity, AbmthS use the fictitious name of Maria.

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