Vidas em quarentena: famílias de comunidade em Maceió relatam convivência durante pandemia

Atualizado: Mai 27

Por Lucas Thaynan - Jornalista


A pandemia do novo coronavírus, que atinge todo o mundo, traz graves reflexos à saúde de toda população e, ainda mais, para aqueles que estão abaixo da linha da pobreza. Conviver com o perigo de ser infectado, infelizmente, é só mais uma das tantas preocupações diárias das famílias que vivem em comunidades do bairro Benedito Bentes, na periferia de Maceió.


Conversamos com algumas destas famílias atendidas pelo Centro Social Madre Maria Rosa (CSMMR), para saber como estão lidando com tais dificuldades impostas pela Covid-19 e quais as alternativas que estão buscando para tentar minimizar o impacto social e financeiro dentro de casa.


Nossa primeira entrevistada é Katia, uma das mães do grupo de adultos, que participa semanalmente das aulas de alfabetização ofertadas pelo Centro Social. Ela conta que antes da pandemia trabalhava cuidando de uma criança no bairro, mas foi dispensada do serviço e agora amarga a vasta lista de desempregados em Alagoas.


Katia e Francisco juntos dos filhos (Foto: acervo pessoal)

“Eu peço a Deus que esta epidemia acabe logo porque a gente não aguenta ficar assim por muito tempo. Pois temos que fazer também as nossas coisas, trabalhar, as crianças têm que voltar a estudar”, conta Katia, que é mãe de três jovens. Todos eles participam das atividades no período da tarde no CSMMR, mas agora por conta da pandemia precisam se reinventar para preencher o tempo livre.


“Para ocupar o tempo dos meninos, a gente deixa eles desenhar. Mas eles gostam mesmo é de TV, passam o dia quase todo assistindo. Outra coisa que eles fazem muito é ficar no balanço, que fiz em um pé de manga aqui do quintal de casa. É assim que estamos fazendo para passar o tempo”, relata Francisco, esposo de Katia.


As crianças brincam no balanço construído por Francisco (Foto: acervo pessoal)

O sustento da família vem basicamente do benefício que Francisco recebe do governo após ter sofrido problemas de saúde quando trabalhava em uma usina de cana-de-açúcar no estado. Kátia aguarda a liberação do auxílio emergencial oferecido pelo Governo Federal para desempregados e autônomos. Ser for aprovado, irá receber o valor de R$ 600 pelo período de três meses.


Mãe de 11 filhos, sendo cinco crianças pequenas, Rosilene também participa das aulas de alfabetização no Centro Social e das oficinas de artesanato oferecidas semanalmente na instituição. Segundo ela, os problemas sociais causados pelo coronavírus somam às outras inúmeras adversidades da vida.


“Dificuldades a gente já passa sem estar nesta quarentena. E com isso tudo agora é que estamos passando por mais dificuldades ainda. Meu maior medo é o meu marido pegar esta doença na rua, por que ele precisa sair todos os dias para trabalhar. Imagina se ele fica doente, como vamos ficar?”, questiona.


Rosilene, filhos e neta em casa (Foto: acervo pessoal)

A família não possui acesso a internet em casa, mas quando precisa, Rosilene conta que pega o sinal da irmã, que mora próximo à residência dela. O aparelho de televisão da casa está com defeito e funciona, segundo ela, “só quando quer”. “As crianças gostam de ver vídeo na internet. Mas gosto de ficar com eles e ensinar a pintar, a estudar, e assim a gente vai passando o tempo”, relata.


Dois, dos cinco filhos menores que moram com Rosilene estão na casa da avó, em Murici, uma cidade há cerca de 60 quilômetros da capital Maceió. Eles não podem voltar para casa agora, em virtude de um decreto do Governo do Estado que proibiu transportes de passageiros que realizaram viagens intermunicipais em Alagoas. Cabe a José, o filho mais velho, de 11 anos, que vive com Rosilene, a missão de ajudar a mãe nas tarefas de casa e nos cuidados com os dois irmãos pequenos.


Rosilene teve o seu auxílio emergencial aprovado, mas o do marido ainda não. Ele trabalha em um abatedor de galinha, recebe R$ 200 a cada semana de trabalho. “E assim a gente vai se virando… quando não deve. Porque quando deve, a metade do dinheiro fica logo na venda”, conta.


‘Fé na vida’


Com o avanço de casos do novo coronavírus em Alagoas, o Centro Social Madre Maria Rosa teve que fechar as portas temporariamente, mas os sentimentos de acolhida e afeto continuam vivos mesmo após medidas drásticas para a mitigação da Covid-19.


A instituição distribui, entre as famílias atendidas, boa parte dos mantimentos alimentícios que tinha em seu estoque e está constantemente em contato com todas elas, prestando ajuda no que for preciso. A irmã Joana Pundyk, coordenadora do CSMMR, relata a condição socioeconômica das família atendidas atualmente pela instituição.


“Todas as famílias são mal nutridas e alguns passam fome. Isso faz com que sejam mais suscetíveis a doenças por causa de baixa imunidade. Outro fator é a insalubridade das grotas causada pela falta de saneamento básico e coleta de lixo. Além disso, as grotas são invadidas regularmente pela polícia a procura de traficantes de drogas. Casas são invadidas, moradores aterrorizados e direito humanos desrespeitados”, conta.


Joana fala, que apesar de todas as dificuldades que estas famílias enfrentam, elas creem na vida e na esperança de dias melhores. “O que é mais marcante nessas famílias é o espírito de luta, a fé na vida, a esperança que tudo vai melhorar. Que essas famílias não se entregam ao desespero e consigam tirar o melhor de uma situação muito desafiadora como esta”, deseja.


Andreia Cavalcanti é uma das oficineiras voluntárias do Centro Social. Suas aulas de bordados, crochê e filé proporcionam às mulheres um novo ofício e, sobretudo, uma possibilidade de renda extra para a família. Andreia conta, que mesmo não podendo dar aulas neste período, está em constante contato com suas alunas.


“Estou sempre que contato com as mulheres que fazem oficinas comigo. A saudade é que fica neste momento. Quero muito voltar a fazer o que mais gosto que é ajudar estas mulheres que precisam tanto de atenção e acolhimento, principalmente neste período difícil que estamos passando. Mas logo vamos passar por tudo isso e voltar ao normal”, torce Andreia.


Pastoral da Criança


Líder da Pastoral da Criança e educadora da alfabetização para adultos, Neide da Silva, relata que não está sendo fácil passar este período de quarenta. “Estamos nos reinventando. Não está sendo fácil ter que, de uma hora, parar nossas atividades diárias e ficar apenas dentro de casa. Às vezes bate uma angústia com as incertezas, tanto a respeito do vírus, quanto como vai ser a nossa vida daqui para frente”.


Ela explica que a equipe da Pastoral da Criança está frequentemente em contato com as famílias, mas entende que as atividades da pastoral estão limitadas durante esta pandemia pelo fato da maioria das líderes está no grupo de risco da doença. “Infelizmente não podemos fazer muita coisa por eles, pois a maioria das líderes está com idade avançada. Mas estamos tranquilos, pois sabemos que a maioria das famílias tem recebido o auxílio emergencial. E isso já é algo muito bom”, relata.


Quarantined lives: community families in Maceió report living together during pandemic


The pandemic of the new coronavirus, which affects the whole world, has serious consequences for the health of the entire population and, even more, for those who are below the poverty line. Living with the danger of being infected, unfortunately, is just one of the many daily concerns of families living in communities in the Benedito Bentes neighborhood, on the outskirts of Maceió.


We spoke with some of these families served by the Centro Social Madre Maria Rosa (CSMMR), to find out how they are dealing with such difficulties imposed by Covid-19 and what alternatives they are looking for to try to minimize the social and financial impact at home.


Our first interviewee is Katia, one of the mothers of the adult group, who participates weekly in the literacy classes offered by the Social Center. She says that before the pandemic she worked taking care of a child in the neighborhood, but she was released from service and now the bitter list of unemployed in Alagoas is bitter.


“I ask God that this epidemic will end soon because we can't stand it like this for a long time. Because we also have to do our own thing, work, the children have to go back to school ”, says Katia, who is the mother of three young people. All of them participate in the activities in the afternoon at CSMMR, but now because of the pandemic they need to reinvent themselves to fill their free time.


“To occupy the boys' time, we let them draw. But they really like TV, they spend most of the day watching it. Another thing they do a lot is to stay on the swing, which I did on a mango tree here in the backyard. This is how we are doing to pass the time ”, reports Francisco, Katia's husband.


The family's support basically comes from the benefit that Francisco receives from the government after suffering health problems when he worked at a sugar cane plant in the state. Kátia awaits the release of emergency aid offered by the Federal Government for unemployed and self-employed people. If approved, you will receive R $ 600 for a period of three months.


Mother of 11 children, five of whom are small children, Rosilene also participates in literacy classes at the Social Center and craft workshops offered weekly at the institution. According to her, the social problems caused by the coronavirus add to the countless other adversities of life.


“Difficulties we already go through without being in this quarantine. And with that, now we are experiencing even more difficulties. My biggest fear is that my husband will catch this disease on the street, because he needs to go out every day to work. Imagine if he gets sick, how are we going to get? ”, He asks.


The family does not have internet access at home, but when she needs it, Rosilene says she takes the signal from her sister, who lives near her residence. The television set in the house is defective and works, according to her, "only when you want". “Children like to watch video on the internet. But I like to stay with them and teach them to paint, to study, and so we pass the time ”, he reports.


Two of the five youngest children who live with Rosilene are at their grandmother's house in Murici, a city about 60 kilometers from the capital Maceió. They are not able to return home now, due to a decree from the State Government that prohibited the transportation of passengers who made inter-municipal journeys in Alagoas. It is up to José, the eldest son, 11 years old, who lives with Rosilene, the mission of helping his mother with housework and caring for her two little brothers.


Rosilene had her emergency aid approved, but her husband's still hasn't. He works in a chicken slaughterer, receives R $ 200 every week of work. “And so we can manage… when we shouldn't. Because when it owes, half of the money goes on sale, ”he says.


'Faith in life'


With the advancement of cases of the new coronavirus in Alagoas, the Centro Social Madre Maria Rosa had to close its doors temporarily, but the feelings of welcome and affection remain alive even after drastic measures to mitigate Covid-19.


The institution distributes, among the families served, a good part of the food supplies it had in its stock and is constantly in contact with all of them, providing assistance in whatever is necessary. Sister Joana Pundyk, coordinator of the CSMMR, reports on the socioeconomic status of the families currently served by the institution.


“All families are malnourished and some are hungry. This makes them more susceptible to disease because of low immunity. Another factor is the unhealthiness of the caves caused by the lack of basic sanitation and garbage collection. In addition, the caves are regularly invaded by the police in search of drug dealers. Houses are invaded, residents are terrified and human rights are disrespected, ”he says.


Joana says that despite all the difficulties that these families face, they believe in life and hope for better days. “What is most striking about these families is the fighting spirit, the faith in life, the hope that everything will improve. May these families not give in to despair and be able to get the best out of a very challenging situation like this ”, he wishes.


Andreia Cavalcanti is one of the volunteer workers at the Social Center. Her embroidery, crochet and filet classes provide women with a new job and, above all, a possibility for extra income for the family. Andreia says that even though she is unable to teach in this period, she is in constant contact with her students.


“I am always in contact with the women who do workshops with me. The homesickness is what remains at this moment. I really want to do what I like most, which is to help these women who need so much attention and care, especially in this difficult period that we are going through. But soon we are going to go through all this and get back to normal ”, Andreia cheers.


Pastoral of the Child


Leader of Pastoral da Criança and educator of adult literacy, Neide da Silva, reports that it is not easy to pass this forty-year period. “We are reinventing ourselves. It is not being easy to have to stop our daily activities for an hour and just stay indoors. Sometimes there is anguish with uncertainties, both about the virus and how our life will be going forward ”.


She explains that the Pastoral da Criança team is often in contact with families, but understands that pastoral activities are limited during this pandemic because most of the leaders are in the group at risk of the disease. “Unfortunately, we cannot do much for them, as most leaders are old. But we are calm, as we know that most families have received emergency aid. And that is already a very good thing ”, he reports.


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Lucas Thaynan - Centro Social Madre Maria Rosa

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