Santa Páscoa: quaresma de reflexões

Atualizado: 28 de jun.


Hoje, marcados pelo austero símbolo das Cinzas, entramos no Tempo da Quaresma, iniciando um itinerário espiritual que nos prepara para celebrar dignamente os mistérios pascais. As cinzas benzidas, impostas sobre a nossa cabeça, são um sinal que nos recorda a nossa condição de criaturas, que nos convida à penitência e a intensificar o compromisso de conversão para seguir cada vez mais o Senhor.


A Quaresma, que nos conduz à celebração da Santa Páscoa, é para a Igreja um tempo litúrgico muito precioso e importante. Enquanto olha para o encontro definitivo com o seu Esposo na Páscoa eterna, a Comunidade eclesial, assídua na oração e na caridade laboriosa, intensifica o seu caminho de purificação no espírito, para haurir com mais abundância do Mistério da redenção a vida nova em Cristo Senhor (cf. Prefácio I de Quaresma).


A Quaresma é um caminho, é acompanhar Jesus que sobe a Jerusalém, lugar do cumprimento do seu mistério de paixão, morte e ressurreição; recorda-nos que a vida cristã é um caminho a percorrer, e que consiste não tanto numa lei a observar, quanto na própria pessoa de Cristo a encontrar, receber e seguir. Com efeito, Jesus nos diz: "Se alguém quiser vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me" (Lc 9, 23). Ou seja, nos diz que para chegar com Ele à luz e à alegria da ressurreição, à vitória da vida, do amor e do bem, também nós temos que tomar a cruz todos os dias, como nos exorta uma bonita página da Imitação de Cristo: "Portanto, toma a tua cruz e segue Jesus; assim entrarás na vida eterna. Foste precedido por Ele mesmo, que carregou a sua cruz (cf. Jo 19, 17) e morreu por ti, a fim de que também tu carregasses a tua cruz e desejasses, também tu, ser crucificado. Com efeito, se morreres com Ele, viverás com Ele e como Ele. Se lhe fores companheiro no sofrimento, ser-lhe-ás companheiro inclusive na glória» (l. 2, c. 12, n.). Há uma palavra-chave que é citada com frequência na Liturgia para indicar isto: a palavra hoje; e ela deve ser entendida em sentido originário e concreto, não metafórico. Hoje Deus revela a sua lei e hoje é nos dado escolher entre o bem e o mal, entre a vida e a morte (cf. Dt 30, 19); hoje "o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1, 15); hoje Cristo morreu no Calvário e ressuscitou dos mortos; subiu ao céu e está sentado à direita do Pai; hoje é nos conferido o Espírito Santo; hoje é um tempo favorável. Então, participar na Liturgia significa imergir a própria vida no mistério de Cristo, na sua presença permanente, percorrer um caminho em que entramos na sua morte e ressurreição para receber a vida.


Esse hoje, “hodie”, é muito familiar a N. P. S. Bento como lemos no Prólogo da Santa Regra: “E, com os olhos abertos para a luz deífica, ouçamos, ouvidos atentos, o que nos adverte a voz divina que clama todos os dias: “hoje, se ouvirdes a sua voz, não permitais que se endureçam vossos corações”(9)... Correi enquanto tiverdes a luz da vida, para que as trevas da morte não vos envolvam” (13).

Este itinerário que somos convidados a percorrer na Quaresma é caracterizado, na tradição da Igreja, por algumas práticas: o jejum, a esmola e a oração. O jejum significa a abstinência do alimento, mas abrange outras formas de privação para uma vida mais sóbria. Porém, tudo isto ainda não é a realidade completa do jejum: é o sinal externo de uma realidade interior, do nosso compromisso, com a ajuda de Deus, de nos abstermos do mal e de vivermos do Evangelho. Não jejua verdadeiramente quem não sabe alimentar-se da Palavra de Deus.


Madre Abadessa Martha Lucia.


***Madre Martha Lúcia Ribeiro Teixeira,osb é a atual Abadessa do Mosteiro Nossa Senhora da Paz e está no mosteiro há 39 anos, sendo 23 como abadessa. Suas antecessoras foram Me. Dorotéia Rondon Amarante, osb e Me. Regina Jardim Paixão,osb, ambas do grupo das fundadoras do Mosteiro. A Comunidade conta com 27 membros. “O Abade faz as vezes do Cristo, pois é chamado pelo mesmo cognome que Este, no dizer do Apóstolo: ‘Recebestes o espírito de adoção de filhos, no qual clamamos: ABBA, Pai’.” (Regra de São Bento 2,2).


O Mosteiro Nossa Senhora da Paz pertence à Congregação Beneditina do Brasil e foi fundado em 21 de julho de 1974, como priorado dependente da Abadia de Santa Maria, em São Paulo. Em 23 de maio de 1983, a comunidade alcançou o número mínimo de 12 monjas, necessário para se tornar uma abadia independente. Na época de sua fundação, o mosteiro pertencia à Arquidiocese de São Paulo. Com a criação da Diocese de Campo Limpo, em 1989, a abadia passou a integrar a nova circunscrição.


As fundadoras desse mosteiro foram as Madres Dorotéia Rondon Amarante (1916-2015) e Regina Jardim Paixão (1928-2020), acompanhadas das Irmãs Emerenciana Rabello Jardim (1910-1997), Maria Cruz (1930-2020), Paulina de Carvalho Gomes (1916- 2007), Mônica Castanheira (1926-2018) e Maria Beatriz Rondon Amarante (1918-2016).


Essas religiosas assumiram o desafio de instituir uma nova comunidade monástica inspirada nas disposições do Concílio Vaticano II, preservando a essência da Regra Beneditina, de mais de 15 séculos, adaptada à renovação litúrgica e pastoral. Nesse sentido, desde a sua fundação, essa comunidade reza o ofício litúrgico na língua vernácula, isto é, em português, e não em latim, como é mantido por muitos dos mosteiros fundados antes do Concílio.


 

Lenten of reflection


Today, marked by the austere symbol of Ashes, we enter the Season of Lent, beginning a spiritual journey that prepares us to celebrate the Paschal Mysteries with dignity. The blessed ashes, placed on our heads, are a sign that reminds us of our condition as creatures, that invites us to penance and to intensify the commitment of conversion to follow the Lord ever more closely.


Lent, which leads us to the celebration of Holy Easter, is a very precious and important liturgical time for the Church. As it looks to the definitive encounter with its Spouse in the eternal Easter, the ecclesial community, assiduous in prayer and works of charity, intensifies its path of purification in the spirit, to draw ever more abundantly from the Mystery of Redemption, new life in Christ the Lord . (cf. Preface I of Lent).


Lent is a journey, it is to accompany Jesus as he goes up to Jerusalem, the place of the fulfillment of his mystery of passion, death and resurrection; it reminds us that the Christian life is a "path" to be followed, and that it consists not so much in a law to be observed, as in the very person of Christ to be encountered, received and followed. In fact, Jesus tells us: “If anyone wants to come after me, let him deny himself and take up his cross daily and follow me” (Lk 9:23). In other words, he tells us that in order to reach, with him, the light and joy of the resurrection, the victory of life, love and goodness, we too have to take up the cross every day, as a beautiful page of the Imitation of Christ exhorts us. : «Therefore, take up your cross and follow Jesus; so shall you enter into eternal life. You were preceded by Him, who carried His cross (cf. Jn 19:17) and died for you, so that you too would carry your cross and desire, too, to be crucified. Indeed, if you die with Him, you will live with Him and like Him. If you are His companion in suffering, you will also be his companion in glory” (l. 2, c. 12, n.). There is a key word that is often quoted in the Liturgy to indicate this: the word “today”; and it must be understood in the original and concrete, and not a metaphorical, sense. Today God reveals his law and today it is given to us to choose between good and evil, between life and death (cf. Dt 30:19); today “the Kingdom of God is at hand. Convert and believe in the Gospel” (Mk 1:15); today Christ died on Calvary and rose from the dead; He ascended into heaven and is seated at the right hand of the Father; today the Holy Spirit is given to us; today is a favorable time. So, to participate in the Liturgy means to immerse one's own life in the mystery of Christ, in His permanent presence, to walk a path in which we enter into His death and resurrection in order to receive life.


This today, “hodie”, is very familiar to N.P.S.Bento as we read in the Prologue to the Holy Rule:

“And, with eyes open to the deific light, let us listen, with attentive ears, to what the divine voice that cries out every day warns us: “Today, if you hear his voice, do not allow your hearts to harden”(9) ... Run while you have the light of life, lest the darkness of death overtake you” (13).


This Lenten itinerary that we are invited to follow in Lent is characterized, in the Church's tradition, by certain practices: fasting, almsgiving and prayer. Fasting means abstinence from food, but it encompasses other forms of deprivation for a more sober life. However, all this is still not the complete reality of fasting: it is the external sign of an interior reality, of our commitment, with God's help, to abstain from evil and to live by the Gospel. A person who does not know how to feed on the Word of God does not truly fast.


Written by Mother Abbess Martha Lucia / Translated by Sister Debra Farwell


***The current abbess of the Nossa Senhora da Paz Monastery is Mother Martha Lúcia Ribeiro Teixeira, osb and has been in the monastery for 39 years, 23 of which as abbess. Her predecessors were Me. Doroteia Rondon Amarante, osb and Me. Regina Jardim Paixão, osb, both from the group of founders of the Monastery. The Community has 27 members. “The Abbot takes the place of Christ, for he is called by the same surname with Him, in the saying of the Apostle: ‘You have received the spirit of adoption as sons, in which we cry, ABBA, Father ’.” (Rule of Saint Benedict 2,2).


The Nossa Senhora da Paz Monastery belongs to the Benedictine Congregation of Brazil and was founded on July 21, 1974, as a dependent priory of the Abbey of Santa Maria, in São Paulo. On May 23, 1983, the community reached the minimum number of 12 nuns needed to become an independent abbey. At the time of its foundation, the monastery belonged to the Archdiocese of São Paulo. With the creation of the Diocese of Campo Limpo, in 1989, the abbey became part of the new circumscription.


The founders of this monastery were Mothers Doroteia Rondon Amarante (1916-2015) and Regina Jardim Paixão (1928-2020), accompanied by Sisters Emerenciana Rabello Jardim (1910-1997), Maria Cruz (1930-2020), Paulina de Carvalho Gomes ( 1916-2007), Mônica Castanheira (1926-2018) and Maria Beatriz Rondon Amarante (1918-2016).


These nuns took on the challenge of establishing a new monastic community inspired by the provisions of the Second Vatican Council, preserving the essence of the Benedictine Rule, dating back more than 15 centuries, adapted to liturgical and pastoral renewal. In this sense, since its foundation, this community has prayed the liturgical office in the vernacular, that is, in Portuguese, and not in Latin, as is maintained by many of the monasteries founded before the Council.

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